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Dia do Desarmamento Infantil: Brincando com Coisa Séria

O dia do desarmamento infantil, que, ao contrário do que pode imaginar um incauto, não trata de desarmar menores de idade que se utilizam de armas de fogo para assaltar, sequestrar, ameaçar, traficar drogas ou matar. Trata tão somente de se incentivar que crianças entreguem suas armas de brinquedo, copiando as campanhas de gente grande que entrega armas de fogo verdadeiras na vã esperança de contribuir com a segurança pública.

Ano após ano, as campanhas de desarmamento infantil tomam o país, seduzem pais, mães, professores, políticos, empresas e muitas instituições policiais que saem por ai recolhendo e destruindo em praça pública milhares de armas de brinquedo. Incentivam, ainda, que muitos pais proíbam que seus filhos tenham armas de brinquedo, seduzem escolas a proibir radicalmente esses objetos em suas brinquedotecas.

Como disse, ano após ano, isso acontece… Mas qual o efeito prático? Baseados em que instituições adotam essa postura radical? É o que discutiremos neste artigo, sem maiores pretensões de um pai, professor e especialista em segurança pública.

Inicialmente, cabe salientar que nunca foi proibida no Brasil a venda de arma de brinquedo, o que não é permitido é que essas armas possam ser confundidas com armas de fogo verdadeiras. Vejamos o que diz a lei 10.826/03,  que em seu artigo 26 determina:

“São vedadas a fabricação, a venda, a comercialização e a importação de brinquedos, réplicas e simulacros de armas de fogo, que com estas se possam confundir.”

Sendo assim, as armas coloridas e disformes que se encontra em qualquer loja de brinquedos não estão fora da legalidade. Um pai que compra de presenteia seu filho com esses brinquedos, muito menos.

Não me estenderei na parte legal, uma vez que pouco, ou nada, interessa àquele pai ou mãe que fica na dúvida ou que simplesmente proíbe que seu filho tenha uma arma de brinquedo.

Quando criança, não foram poucas as arma de brinquedo que tive. Normalmente revolveres de espoleta, em estilo Velho Oeste, que pululavam a imaginação daqueles que cresceram assistindo os velhos filmes e séries de caubói, onde o bom era bom, o mal era mal e o bom sempre vencia. Durante minha infância devo ter matado milhares de malfeitores e índios que queriam escalpelar os mocinhos do filme, papel que sempre ocupava. A chatíssima patrulha politicamente correta ainda não existia, bem como não existia a relativização das coisas. Havia certo e errado, e ponto final. Bons tempos…

E, na prática, qual o mal em o seu filho possuir armas de brinquedo? Tornar-se-ia violento? Um criminoso? Respondo com muita tranquilidade: não! Muito pelo contrário; ao impedir que seu filho tenha armas de brinquedo, jogue games violentos, você poderá estar privando-o de uma importantíssima aprendizagem, pois lidando com violência de faz-de-conta ele aprende a entender a violência verdadeira, criando um parâmetro claro do que é bom e do que é mau.

Estudei muito sobre o assunto, li dezenas de textos, estudos, falei com muitos especialistas e a conclusão que cheguei e que qualquer um chegaria é que aqueles que propõem a proibição de armas de brinquedos e games ditos violentos só se baseiam em ideias e até ideologias que não possuem qualquer embasamento concreto ou prático na diminuição da violência. Sem contar aqueles que aderem ao politicamente correto sem parar um só segundo para refletir sobre a coisa toda.

Abaixo, a transcrição de alguns trechos que colecionei e recomendo atenta leitura.

“Muitos pais temem que seus filhos brinquem com armas e que venham a usá-las quando forem adultas. Porém Heloísa Miranda não acredita que o uso de armas de brinquedo indusa uma criança a usar armas verdadeiras na fase adulta e justifica o significado que o brinquedo tem para a criança. Um brinquedo tem para as crianças diversas significações, isto foi verificado num estudo feito por Ruth Harley e seus colaboradores.

Por exemplo:- se numa brincadeira, com duas crianças pequenas, há imitação de animais, imitando os urros de leão, urso e suas patadas, não se pode dizer que ambas estejam expressando a mesma coisa. Para uma delas pode significar uma forma de manifestar sua raiva, sua hostilização para com os outros, para outra apenas uma forma de fazer movimentos, de estar em ação, necessidade que aparece nas crianças mais novas. Verificou-se que a diversidade é tão grande, que se torna impossível que um dado brinquedo tenha essa ou aquela característica para todas as crianças, da mesma forma encontram-se as diversidades nas crianças que gostam de brincar com armas.” Sonia Regina Ferreira Serrano Vieira - Psicóloga Clinica

“A presença de "armas" de brinquedo em casa não influenciou nenhuma das três taxas de agressividade (real, simulada ou total)” PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO de Timoteo Madaleno VieiraI; Francisco Dyonisio C. MendesII; Leonardo Conceição GuimarãesII

“Para a doutora em sociologia Irene Rizzini, vice-presidente da Childwatch International Research Network, a questão do uso de brinquedos agressivos e a exposição da criança a filmes violentos é um debate muito sério. "A arma de brinquedo, por si só, não estimula um comportamento agressivo numa criança. É preciso um conjunto de fatores. Se a criança tiver elos fortes com adultos que realmente se importam com ela, os brinquedos agressivos não provocarão atitudes predominantemente violentas dela perante a vida", afirma. Mais uma vez, o diálogo é fundamental. "Uma criança precisa também de adultos que conversem com elas sobre a violência a que ela está exposta", diz Irene.” Reportagem do site Bolsa de Mulher, Claudia Altschüller

“A ABRINQ entende que a utilização desses brinquedos para a expressão da agressividade, principalmente dos meninos em uma determinada faixa etária, pode ter uma função pedagógica desde que isso seja feito dentro de regras bem definidas e com uma atenção especial dos adultos. Esse tipo de brincadeira pode ajudar a criança que expressa a sua agressividade de forma lúdica a canalizar os seus sentimentos e perceber os seus limites. Segundo o assessor de imprensa, há muitos anos que os fabricantes foram deixando, voluntariamente, de produzir qualquer tipo de arma de brinquedo.” Associação Brasileira da Industria de Brinquedo

“Brincar é sempre brincar. Um revólver de brinquedo não torna ninguém mais agressivo do que já é por natureza. Quando a criança brinca com essas armas que emitem luzes e sons, está representando coisas da vida real. É uma maneira de fantasiar e aprender a lidar com o mundo tão inofensiva quanto jogar botões ou videogame. O problema é quando o brinquedo se parece demais com um revólver de verdade. Nesse caso, a criança não saberá diferenciar o brinquedo de uma arma. Isso pode gerar até um acidente doméstico, caso os pais tenham uma arma guardada em casa.”  Eddna Bomtempo Mestrado em Psicologia Social e Experimental USP, entrevista Revista Veja – 2001

“… medo da violência fez surgir um movimento contra as armas de brinquedo e até contra as brincadeiras em que crianças dramatizam cenas violentas. A vida da classe média brasileira era mais tranquila em outras épocas, e quase ninguém imaginava que brincar de bandido e mocinho pudesse estimular a formação de pessoas agressivas. E não pode mesmo.” Luca Rischbieter - pedagogo

“Aceitar a arma de brinquedo em sala de aula ainda é difícil para muitos educadores e isso decorre de alguns fatores, entre eles, o que acredito ser de maior influência, o desconhecimento. Quando não conhecemos determinado assunto, a primeira coisa que fazemos é concordar com o que é popularmente definido, depois, se sentirmos necessidade, buscamos informações mais teóricas sobre o assunto. Porém, a realidade que temos hoje não colabora para que o professor tenha essa prática, há muitos professores que estão distantes de uma prática reflexiva e que não participam de propostas de formação e isso ocorre por diversos fatores: a falta de investimento da escola na formação continuada de seu professor, a falta de investimento do estado na formação de seus educadores, a grande falha na formação inicial dos professores, o problema do acesso as novas informações...

De qualquer forma, se o professor não compreende que há uma necessidade da criança de que conversem com ela sobre o que acontece ao seu redor para que ela possa ter elementos para interpretar e analisar a sua realidade, se o professor desconhece o fato de que a brincadeira trata-se de um universo de faz de conta, que não tem consequência no mundo real e que a criança tem total consciência disso; fica muito difícil aceitar as armas e as situações de violência que as crianças trazem espontaneamente para a sala de aula.” Beatriz Ferraz – Psicóloga – Entrevista para o site Escola de Educadores

“Autor do livro Psicologia da Agressividade, o psicólogo Jacob Pinheiro Goldberg aconselha os pais a não tomar posições extremadas. Segundo ele, passar um conceito de pacifismo radical pode despreparar a criança para a competição e o trato com a violência no mundo real. "Permita a arma de brinquedo sem estimular seu uso de forma permanente", aconselha o psicólogo. Os pais devem conversar com os filhos e falar sobre as conseqüências de um tiro na vida real. A experiência de Goldberg mostra que boa parte das crianças, quando esclarecidas sobre seus efeitos, deixa de se sentir tão atraída por esses brinquedos. Sobre isso, a Abrinq tem diretrizes para quem fabrica esse tipo de produto. A recomendação é apelar para a fantasia: a arma de verdade e a imitação devem ter tamanhos diferentes, além de uma cor que não deixe margem à confusão (branca, vermelha, laranja, amarela, roxa ou rosa).” Revista Veja – Guia Filhos

“A gente acaba demonizando arma de brinquedo, vídeo-game e não presta atenção em outras coisas que incentivam a violência, como o comportamento dos pais no trânsito, por exemplo. Acho que nossa maior preocupação deve ser com os exemplos que nós damos para eles.” Rosely Sayão – Psicóloga

Para aqueles que desejam se aprofundar verdadeiramente no assunto, sugiro a leitura do livro de Gerard Jones “Brincando de Matar Monstros”: Por que as crianças precisam de fantasia, videogames e violência de faz-de-conta – Editora Conrad – 2004. O título é autoexplicativo e trará importantes informações para aqueles pais e educadores que ainda possuem dúvidas a respeito do tema, as quais, por certo, serão substituídas pela fácil constatação de que a verdadeira abominação às armas de brinquedo não encontra respaldo científico absolutamente nenhum, sendo fomentada, exclusivamente, pela imposição de uma linha ideológica desprovida de embasamento.

Já para os adeptos e divulgadores radicais - e até irracionais - do “desarmamento infantil”, sugiro que pelo menos se mude a data que marca o movimento para 1º de abril. Fará muito mais sentido.




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